Pesquisa examina o impacto dos modelos de negócio no exercício jornalístico dos meios digitais

O Dr. René Jara, acadêmico da Escola de Jornalismo da Usach, lidera um projeto Fondecyt Regular que busca analisar como os modelos de negócio digitais influenciam a autonomia, as práticas profissionais e a sustentabilidade dos meios nativos digitais no Chile. A iniciativa, que busca incluir diferentes meios de todo o país, conta com o apoio da Direção de Investigação Científica e Tecnológica (Dicyt-Usach).

Primeiro plano de mãos segurando um smartphone no escuro, com ícones de notificação 3D brilhantes, como "curtir", corações e mensagens flutuando acima.

A rápida digitalização da sociedade modificou profundamente as formas como as pessoas se informam e se relacionam com o ambiente. Hoje, grande parte do consumo de notícias ocorre em plataformas digitais e em ambientes mediados por algoritmos, onde o imediatismo, a circulação constante de conteúdos e a competição pela atenção configuram um cenário informativo completamente diferente do que era há apenas uma década. Essa mudança impulsionou o surgimento de novos atores que respondem diretamente à lógica da internet e às práticas de consumo contemporâneas.

Nesse contexto, os chamados Meios Nativos Digitais (MND) são plataformas informativas criadas especificamente para operar na internet, com conteúdos projetados para circular nas redes sociais e em outros ambientes digitais. Eles não vêm de formatos tradicionais, como imprensa, rádio ou televisão, mas surgem online e se adaptam ao consumo imediato e à multiplataforma própria do ecossistema digital.

Ao contrário dos meios tradicionais, os Meios Nativos Digitais operam com estruturas mais flexíveis e modelos de financiamento fortemente condicionados pelo tráfego e pelas plataformas. Sua dependência de métricas em tempo real e de audiência os torna mais rápidos, mas também os coloca frente a uma alta competição pela atenção, limitações de financiamento e pressões externas que afetam sua autonomia editorial e sustentabilidade, especialmente em locais onde as audiências e os recursos são mais limitados.

Impacto dos modelos de negócio

Para examinar esse fenômeno, o acadêmico da Escola de Jornalismo da Usach, Dr. René Jara, lidera o projeto Fondecyt Regular que analisa, a partir de uma perspectiva territorial e comparada, as lógicas que estruturam o funcionamento dos MND. O estudo coleta informações em diferentes regiões, identifica os tipos de capital que circulam nas equipes jornalísticas e avalia como os modelos de negócio influenciam a tomada de decisões editoriais e a sustentabilidade dos projetos.

"Uma parte muito importante do consumo de notícias hoje passa pelos meios criados diretamente para o ambiente digital. Entender como funcionam e quais pressões enfrentam é fundamental para compreender como o jornalismo está mudando no Chile", destaca o Dr. René Jara.

Para aprofundar essa compreensão, a pesquisa incorpora um levantamento sistemático de casos em diferentes regiões do país, o que permite observar como esses meios se articulam com seus contextos produtivos, econômicos e sociais. Essa visão territorial revela diferenças importantes entre Santiago e outras regiões, onde a disponibilidade de audiências, recursos e financiamento condiciona a forma como os meios se organizam, definem suas linhas editoriais e enfrentam sua sustentabilidade.

"Em várias regiões, observamos que os meios digitais são desenvolvidos em estreita relação com as atividades produtivas locais. Esse financiamento ajuda a sustentá-los, mas também condiciona o tipo de jornalismo que podem fazer. Por isso, é fundamental estudar essas dinâmicas no terreno e compreender como elas se expressam em diferentes contextos do país", adverte o Dr. René Jara.

O desafio das redes sociais

Outro eixo chave do projeto é analisar como a forte vinculação desses meios com as redes sociais acaba moldando suas decisões editoriais, pois o modelo de negócio digital, baseado na circulação e no consumo imediato, impõe pressões que afetam o tipo de jornalismo possível e as margens de autonomia com as quais se trabalha.

"Essas dinâmicas não só determinam a sustentabilidade dos meios, mas também redefinem sua função informativa, instalando novas limitações e desafios para o exercício jornalístico em um ecossistema cada vez mais condicionado pelas plataformas", afirma o pesquisador.

O projeto terá duração de três anos e prevê um trabalho metodológico que combina entrevistas, análise territorial e revisão de dados de audiência. A equipe coletará informações em diferentes regiões do país por meio de uma triangulação de entrevistas com diretores, responsáveis comerciais ou tecnológicos e jornalistas de meios nativos digitais, o que permitirá comparar discursos, modelos de financiamento e práticas profissionais.

Para isso, a equipe contará com a participação das co-pesquisadoras Dra. Alejandra Phillippi e Dra. Ximena Orchard, ambas acadêmicas da Escola de Jornalismo da Usach, além de diferentes estudantes de programas de pós-graduação e graduação que colaborarão no trabalho de campo e na análise de dados.

A pesquisa busca oferecer uma compreensão profunda do ecossistema de meios nativos digitais no Chile, gerando evidências que permitam identificar suas tensões, particularidades regionais e condições de sustentabilidade. Ao integrar o trabalho de campo, a análise territorial e a revisão de modelos de negócio, o projeto visa fornecer ferramentas que fortaleçam o desenvolvimento de meios locais e contribuam para um debate público mais diversificado e robusto.

"Gostaríamos que este trabalho se tornasse um livro de referência sobre meios nativos digitais no Chile, reunindo experiências, aprendizagens e desafios que observamos ao longo destes anos. Se este projeto ajudar os meios regionais a contar com mais ferramentas, tomar melhores decisões e cometer menos erros ao longo do caminho, sentiremos que estaremos cumprindo nosso propósito", projeta o Dr. René Jara.
 

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